13 de jul. de 2015

Suficiente

Acho que as palavras não bastam para concretizar tudo o que sinto aqui dentro do peito esses tempos. As minhas e tampouco de algum escritor famoso, nem de todos os livros já publicados no mundo. 

Na verdade, não seria preciso todas as 222 palavras contidas nesse texto pra listar as qualidades e defeitos que fazem dele o que ele é.

Nenhuma música seria capaz de englobar tudo o que eu preciso dizer para ele. Ninguém conseguiu compor tal canção. Eu, inclusive, dispensaria as mais de 50 músicas que já compus e todas as melodias que já dedilhei no meu velho violão. Todas insuficientes.

Nossos filmes preferidos não chegam perto do significado que ele tem para mim. Pode até parecer dependência ou que ele é a peça que completa esse quebra-cabeças louco que é a minha vida. Mas ele é mais. Ele me transborda e é por isso que dificilmente uma carta, uma fotografia, uma dança, um coral inteiro conseguiria reproduzir com exatidão o que eu sinto por ele.

Mas existe algo que é tão, mas tão simples, que é extremamente eficaz quando se trata de mostrar o que eu sinto. Eu dispensaria tudo e apenas usaria meus dois braços, apertando o corpo inteiro dele num abraço que diria muito mais do que qualquer meio de comunicação existente no universo inteiro. 

E pronto.

4 de jul. de 2015

Mais uma xícara, por favor

Voltei.

De braços abertos, sem remoer o passado ou me preocupar com o futuro. Só sinto uma vontade enorme dentro do meu peito, aqui e agora, e isso é o bastante. Senti e voltei.

"Não posso te prometer nada, sinto muito". E ele me abraça porque sabe que não adianta argumentar, nunca adiantou. O melhor a se fazer é aproveitar o abraço e matar aquela saudade maldita que andou corroendo cada canto do meu corpo. E o corpo dele preenche o espaço antes vazio, me transborda e me faz sentir que estou no lugar certo, por hora.

Um café preto e bem forte. Um suéter confortável, um sofá aconchegante, um colo saudoso e um filme qualquer. Ótimo. Agora é só aproveitar enquanto a vontade não passar, enquanto o sentimento for necessário pra que a gente consiga viver nesse mundo cão, que fica cada dia mais raivoso, principalmente quando estamos longe um do outro. Enquanto eu não sentir minhas energias recarregadas pra poder enfrentar o mundo lá fora, eu continuo aqui dentro com ele me dizendo que a cafeteira ainda tá cheia.

15 de out. de 2014

Tê-la


Aquele gosto impregnou por mais de uma semana. Comeu coisas estranhas, escovou os dentes, bebeu vinho, mas o gosto continuava ali. Juntamente com o gosto, a lembrança dela. Da boca macia, dos lábios rosados, da pele suave, dos olhos cor de mel, do cabelo negro; a garota sem nome. Nem importava muito, na opinião dele. Já tinha muita coisa dela pra guardar na lembrança, o nome era coisa pouca. Tudo estava guardado, impregnado como o gosto da língua dela na dele.

Era gosto de quero mais, gosto de quem sabia muito bem o que estava fazendo quando se aproximou dele. Aquele gosto era de menina grande que oscilava entre sonho e realidade, mas sabia o que queria, muito bem, obrigada. E naquela noite, ela o quis. Ele a quis. Ela deixou seu gosto na boca dele e ele sabia que muitos caras já tinham sentido o mesmo que ele. Não que importasse agora, mas o pensamento cruzou a mente. Ela se entregara inteiramente pra ele naquela noite. Ao menos foi o que pensara durante alguns minutos depois de tê-la.

Ele, infelizmente, não sabia do fato mais importante sobre a tal moça. Ela não era de ninguém. Era dela própria, às vezes nem isso. E naquele momento, em que a boca dela encostou na dele e seus corpos se encontraram, ele não a possuía. Ela não era nenhum objeto, afinal de contas.

1 de out. de 2014

Libertação

Desde que comecei a escrever textos decentes para o blog (o que foi um dia desses, no caso), eu sinto na pele a dificuldade de ilustrar os meus textos. Sem condições de fazer minhas próprias fotos (com aquela câmera compacta não dava pra fazer muito milagre), restava-me a opção de procurar belas imagens nessa internet de meu deus. E esse trabalho sempre foi mais difícil do que escrever o próprio texto em si.

Uma coisa é fato: você nunca vai encontrar uma foto que represente perfeitamente a grandeza do seu texto. Isso só é possível quando um texto surge a partir de uma imagem, o vice-e-versa é muito mais complicado. Porque todas as expectativas e devaneios que você criou na sua cabeça enquanto organizava seus pensamentos nunca vai ser exatamente igual ao de outra pessoa. A essência pode ser a mesma, a ideia bruta que normalmente vira a foto que vai ilustrar seu texto, mas nunca vai encaixar perfeitamente. A não ser, é claro, que você mesmo comece a pensar o seu texto verbal e imageticamente.

E depois de finalmente conseguir uma câmera decente (que o TCC me exigiu e minha mãe viabilizou) e começar a estudar bem mais, tomei uma decisão na minha vida: agora todas as fotos que ilustrarem meus textos serão de minha autoria e/ou pensadas por mim. Resolvi me livrar das dependências de outras pessoas e começar a planejar as coisas do meu jeito, tentando transmitir minhas ideias e discursos da maneira mais fiel possível.

Sendo assim, eu declaro este como o primeiro post do Inconstante a ser ilustrado por uma imagem minha - e apesar da foto ter sido tirada pela linda da Angel Monteiro, o conceito foi pensado por mim e o modelo sou eu, rs. Pra representar essa mudança, nada melhor do que tentar ilustrar essa liberdade que é se desprender das amarras do oceano infinito de imagens que nunca serão exatamente do jeito que você quer. Se elas não forem, então crie novas que serão.
Foto: Angel Monteiro


16 de set. de 2014

Sobre crises

Nesses últimos dias, entrei numa crise que mistura abstinência e falta de interesse. Explico-me: tentei, por inúmeras vezes, escrever algum texto para esse bendito blog, mas nada vingou ou me agradou no seu resultado final. Comecei a achar meus textos simplesmente sem utilidades e desinteressantes. Não que algum dia essas duas características tivessem sido suas marcas registradas, mas a falta delas nunca me incomodou de fato. Até agora.

Sento minha bunda na cama (porque não tenho uma mesa para trabalhar) e tento desenvolver alguns pensamentos e opiniões que surgem vez ou outra na cachola. Eu tenho bastante coisa pra dizer, mas ultimamente tudo tem me parecido tão inútil e esquecível que eu desisto de escrever na metade.

O que eu queria mesmo era sentir aquela vontade incontrolável que vem lá do fundo do estômago quando a gente está escrevendo alguma coisa tão interessante, mas tão interessante, que não existe a possibilidade dos seus dedos pararem de digitar por dois segundos pra revisar o texto. Revisar eu faço depois, quando terminar de escrever tudo o que me veio à mente. E no máximo a revisão vai servir pra corrigir umas letras intrusas que se enfiaram nas palavras enquanto meus dedos digitavam freneticamente. Porque o calor do momento também contribui e muito pra que um texto se torne interessante.

E interessante é uma característica indispensável pra que um texto exista. Porque o autor, antes de apenas despejar litros de palavras em algum lugar, precisa achar suas próprias palavras interessantes. Não falo só do texto que a gente pensou aqui na cabeça, o que existe antes no mundo das ideias. Depois de ser concretizado de fato, ele precisa continuar interessante. E não tem que ser só pro Fulano que vai ler. Antes de qualquer coisa, o próprio autor precisa sentir uma vontade, daqui a uns três dias ou uns quatro meses, de abrir o blog e lê-lo de novo, talvez sentir um pouquinho de orgulho por ter escrito algo que considere relevantemente interessante. E compartilhar de novo no Facebook, de tão bom que ele parece.

Mas infelizmente, no final das contas, eu só tenho sentido fome e sono.

Encontrei aqui.

20 de ago. de 2014

História

Encontrei no Brett & Jessica
Sonhos? Ah!, eu tinha de monte, meu filho. Eu era a menina mais sonhadora dessa cidadezinha de fim de mundo. Ficava pensando no dia em que eu ia sair daqui, viver uma vida de gente adulta numa cidade grande, com marido rico, dois filhos, vida feita, vida ganha, tudo certo. E eu era ambiciosa. Se eu queria, eu corria atrás que nem louca pra conseguir. Não deu certo na maioria das vezes, mas eu era teimosa demais, não desistia fácil. Só que teve uma hora que não deu mais, tinha muita coisa querendo minha atenção e eu não podia mais ser aquela menina sonhadora que sentava na frente de casa e ficava assistindo os meninos jogarem futebol, imaginando qual deles se tornaria um jogador famoso e meu futuro marido. Eu torcia pra ser o Edu, que era o mais bonito de todos e que sempre abria um sorriso pra mim quando me via passar. É claro que eu retribuía, de forma discreta pra ninguém sair falando. Porque vou te contar, povo de cidade pequena sabe de tudo. Passa mais tempo falando da vida dos outros que cuidando da própria. A gente tinha que tomar cuidado com tudo o que fazia, ainda mais se fosse coisa que pai e mãe não aprovavam. Namorar, então, foi uma verdadeira aventura de cinema, de tanto que eu fugi e me escondi por aí pra namorar o Dudu (não, não é o mesmo Edu do futebol, porque ele se mudou daqui algum tempo depois).

O Dudu trabalhava na padaria com o pai, atendendo os clientes. Eu ia lá toda tarde comprar pão, às três e meia, quase num horário sagrado, só pra ver ele e confirmar se tava tudo certo pra gente se encontrar atrás da igreja às sete e quinze. Era o horário que começava a missa e tava todo mundo lá dentro, então ficava mais fácil da gente namorar em paz.

Uma vez o padre quase pegou a gente, porque o carro dele quebrou e ele teve que ir andando pra igreja. Aí a missa atrasou e ele chegou na hora que eu tava indo lá pra trás encontrar o Dudu. Perguntou por que eu ainda não tava lá dentro e eu não tive opção a não ser entrar na igreja e assistir a missa. Deixei o Dudu lá me esperando e nesse dia não deu pra namorar. Mas foi só nesse.

Até porque pouco tempo depois Dudu teve coragem de ir falar com meu pai pra pedir permissão pra gente namorar do jeito respeitoso, como dizia minha mãe. Meu pai ficou meio desconfiado no começo, mas aceitou. E então a gente deixou de se encontrar atrás da igreja e agora o encontro era na porta da minha casa, ainda no mesmo horário. Só não podia passar das nove e meia porque era tarde demais pra moça de família ficar na rua. Meu pai deixava meu irmão mais novo vigiando a gente da janela, pra ver se a gente se dava o respeito e não fazia nenhuma safadeza. No começo meu irmão até que era um bom vigia pro meu pai, mas depois de um tempo ele cansou de passar tanto tempo sentado na janela sem fazer nada. Aí foi só o Dudu começar a comprar ele com petecas que a gente teve alguns momentos de privacidade.

Não demorou muito pra gente juntar as coisas e casar de vez. Eu já tinha quase vinte e já queria mesmo ter minha casinha, minhas coisas, sem pai nem mãe pra vigiar ou pra depender. Foi na mesma época em que o pai do Dudu ficou muito doente e não pode mais trabalhar, deixando a padaria pro filho cuidar. Aí eu fui trabalhar com ele, porque não tinha dinheiro pra pagar mais gente pra ajudar a manter o negócio. E eu era uma cozinheira de mão cheia, inclusive ajudei a deixar o pão mais gostoso e comecei a fazer alguns pães diferentes pra vender. A gente levou aquele negócio muito bem durante anos, quase quarenta. Mas aí o Dudu adoeceu, tinha o mesmo problema do coração que o pai e não deu pra gente continuar fazendo pão. Então a gente vendeu a padaria e o dinheiro ajudou bastante no tratamento do meu velho. Nossos filhos todos se formaram, um engenheiro, um dentista e uma professora, que foram pra cidade ganhar a vida, porque se passou muito tempo, mas isso ainda é uma cidade muito pequena, eles não tinham muito o que fazer por aqui.

Apesar do meu sonho de pequena de sair daqui e ver o mundo lá fora, eu preferi ficar aqui, mesmo tendo a oportunidade de ir embora. Depois de um tempo percebi que esse era o meu lugar e tô muito bem aqui com o meu marido, vivendo confortável, com filhos bem-sucedidos que vêm visitar a gente todo mês, num desses finais de semana que a vida tá menos corrida. Tô tranquila vivendo o que me resta pra viver, do jeito que eu escolhi viver. Tô muito bem, meu neto, obrigada por perguntar.

3 de ago. de 2014

14.883 gotas

Photo: weheartit
Contei catorze mil oitocentas e oitenta e três gotas. Depois eu arredondei esse valor pra quinze mil por ter perdido cerca de cem gotas antes d'eu realmente começar a contar pingo por pingo. E demorou. Demorou muito. Pra caralho. Levava pelo menos uns 10 segundos pr'uma gota cair e, como depois de um tempo eu já tinha desistido de viver, eu desisti de me preocupar com o tempo que eu gastei contando gota por gota. Mas isso foi só depois. No começo eu queria era sair dali.

Tava tudo tranquilo naquele sábado até eu começar a tossir. Foi de repente, mas é só um tosse besta. Quando eu percebi, tava na minha cama com quarenta graus de febre, dores no corpo e compromissos cancelados. A coisa não melhorou muito no domingo, mas foi só na segunda que eu me rendi e falei pra mim mesmo que tava foda demais pra ficar deitado esperando deus salvar minha vida. Fui então utilizar todos os meses já pagos do plano de saúde que me podia ser útil um dia (tcharan!) e mesmo assim me fizeram esperar pra porra. Passei umas cinco horas entre dar entrada na emergência, ser consultado, fazer os exames solicitados e retornar pra doutora dar o laudo definitivo. Só sei que no final a médica me disse que não tinha dado nada nos meus exames e só mandou eu tomar soro. Mas as coisas sempre podem piorar, não é, meu caro? Não bastava eu estar me sentindo muito mal, ter esperando três vidas pra fazer tudo e aquela vaca me dizer que eu não tinha nada (WHAT?), eu fui tomar soro. Mas não, não apenas soro. Foram três, você leu bem, três bolsas de soro, de um forma tão, mas tão lenta que a melhor forma que eu achei pra descrever essa lentidão está no começo desse texto, seu moço.

E qual o objetivo desse texto? Sei lá, foi só um desabafo. Talvez queira que alguém se compadeça da minha história, do meu dia ruim, ou só que as pessoas sintam um pouco do que senti. Assim como a doença surgiu, de repente, veio a vontade de relatar essa minha história.

Aliás, já tô melhor.

28 de jul. de 2014

A luta diária de Paula

weheartit
A luta diária de Paula começa antes mesmo de abrir os olhos. Basta acordar, ainda com as pálpebras cerradas, pra ter certeza de que preferia ter continuado dormindo. Por que levantar? Qual a necessidade de sair do lugar mais aconchegante que existe no mundo? Um absurdo quem inventou essa história.
Pensar em tudo o que ela precisava fazer durante o dia deixava tudo mais difícil. Inclusive parecia que a cama sabia de todos os compromissos de Paula e teimava em deixar os lençóis e travesseiros ainda mais confortáveis. Quase uma missão impossível sair dali.
Paula não queria trabalhar, encontrar os amigos, não queria pensar muito. Falando em trabalho, imagina o quão bem-sucedida Paula seria se trabalhasse dormindo? Melhor emprego do mundo, empregada do mês, do ano, não teria pra ninguém. Mas isso não existia – ou pelo menos ela não tinha conhecimento desse trabalho (mas era uma boa ideia pesquisar no Google se existe alguém que ganha dinheiro dormindo).
Passou tanto tempo tomando coragem pra levantar que sentiu fome. Foi aí então levantou da cama.

19 de mai. de 2014

Agora, triste

Ligo o computador. A playlist já tá pronta, só preciso dar o play. Não vou ouvir baterias barulhentas, palminhas, sintetizadores ou gritos. Vai ser calmaria. Quero continuar deitado na minha cama, encarando o teto branco e sem graça, me sentindo simplesmente triste.

Não quero minha comida preferida, não quero aquela música que me faz dançar, não quero a lembrança dos bons momentos que eu vivi, não quero os meus amigos que me fazem minha barriga doer de tanto rir, não quero pensar, não quero brincar, não quero ser feliz. Não agora.

Quero ficar parado, ali, sem saber exatamente o motivo de querer tanta tristeza. Só sei que quero continuar ouvindo aquela melodia triste, cantada por uma voz triste, que sente a mesma coisa que eu.

Acho que o dia foi cheio, nem tudo deu certo, eu fiz alguma besteira enorme e eu sei que faz parte da vida e não tô reclamando disso, eu juro. Só que deu vontade de aproveitar a tristeza que eu tô sentindo. Sei que ela vai me fazer bem, mesmo que não seja agora.

Encontrei aqui.

5 de mai. de 2014

Um mo(vi)mento

É incrível como a coisa flui, pelo menos pra mim. Basta um movimento interessante de alguém na rua, um estranho que eu nunca vi mais gordo, mas que levantou o braço de um jeito tão... tão... sei nem descrever. E aquele movimento aparentemente simples fica gravado na minha memória, rodando no repeat, até eu escutar aquela música que eu sempre quis coreografar. E tem aquela parte muito bonita da letra que diz que o amor é complicado, mas isso pouco importa no final das contas. Ficaria tão bonito aquele movimento de braço na hora que o cantor canta isso, quando a guitarra chora. E aí já era. Me vem outro movimento, vou experimentando aleatoriamente, essa música é tão bonita, a perna levanta nessa hora, and it's never enough, love is never enough without you, e a música acaba.

A coisa nem sempre fica perfeitamente bonita, mas dá pra ir aperfeiçoando com o tempo. Queria mesmo era encontrar aquele estranho na rua e dizer obrigado. Ou quem sabe mostrar pra ele como ficou a coreografia, ou só dar um abraço, sei lá.

Photo: Renan Mendes | Modelo: Filipe Lobato

27 de abr. de 2014

Acúmulo

Sentei na frente do computador sem esperar muita coisa. Afinal, fazia muito tempo, nem me lembro desde quando, que aquela velha conhecida vontade de transformar tudo em palavra havia morrido. Foi de repente, assim como acontece com muita gente. Um dia tá tudo bem, melhor impossível, e quando vai ver, acaba, ponto final.

Não teve choro, não teve velório. Sempre achei que sem tanto drama fica mais fácil de aceitar qualquer perda, então eu não dramatizo e paro de pensar tanto no assunto. Um amigo meu vive me dizendo que meu coração deve estar cheio de lágrimas não choradas, de dores não colocadas pra fora e ele tem certeza que um dia eu vou transbordar e tudo vai vazar de uma só vez, inundando tudo. Não sei se eu acredito nele, mas o fato é que em todos esses anos nunca ouve nenhum prenúncio ou aviso divino de que meu dilúvio estivesse prestes a acontecer. Então eu continuo evitando o drama, assim como eu fiz quando minha vontade de escrever morreu.

O fato é que naquele dia alguma coisa parecia diferente. É bem clichê dizer isso, mas eu sentia que alguma coisa tinha mudado. O quê? Eu não fazia a menor ideia. Foi por isso que eu revisitei todas as minhas perdas pra ver se a mudança tinha alguma coisa a ver com elas.

Comecei com o violão, que meu pai me deu de aniversário aos 12 anos e que foi abandonado três meses depois. Eu até tocava bem, mas depois enjoei. Mas a vontade podia ter voltado, não é? Peguei o violão, dei uma limpada no bicho que tava mais empoeirado que meus CDs na estante da sala e dedilhei as cordas. Foi um sentimento estranho e ruim. Sei lá, eu me sentia errado segurando aquele instrumento. Eu não me lembrava de muitos acordes, então não pude fazer muita coisa a não ser colocá-lo de volta no canto do quarto.

Então sentei no computador, como já disse. Abri uma página em branco pra ver o que acontecia e aconteceu. Começou com a letra 'a' e depois uma palavra, uma frase, um parágrafo. Eu transbordei. Meu dilúvio finalmente aconteceu e as minhas palavras eram gotas da chuva e o som dos meus dedos tocando freneticamente várias letras no teclado preto era o trovão.

Só que depois de um tempo, parecia que minhas mãos não eram rápidas o suficiente pra acompanhar toda a tempestade que acontecia dentro de mim, toda a euforia e tristeza misturadas com o alívio que percorria o meu corpo inteiro. Foi aí que comecei a transbordar pelos olhos, sentindo o dilúvio esquentando meu rosto, borrando minha visão e não me deixando mais ler o que eu escrevia na tela. Mas isso pouco importava. Eu sentia o que eu queria escrever e era muito mais forte do que qualquer palavra que eu digitasse no teclado. E eu continuei sentindo até que eu me vi fraco demais pra conseguir sobreviver ao meu próprio dilúvio.

Teve choro, teve velório.
Photo: weheartit

25 de fev. de 2014

Natural demais

Era mais um dia normal como sempre, muito obrigado, até eu ler uma matéria sobre o caso Madeleine McCann, que vai completar seis anos em maio. A menina desapareceu em 2007, do quarto de um hotel português onde a família estava hospedada passando férias. Eu tinha me esquecido desse caso, confesso. Mas depois de ler o texto, minha cabeça fervilhou tanto que só me restou escrever.

Eu não consigo imaginar a angústia dos pais da menina quando descobriram que a filha havia desaparecido. E mais difícil ainda é imaginar como esses pais conseguiram viver esses quase 6 anos sem notícia alguma, sem saber se ela está bem ou se está viva. Eles estão esse tempo todo no escuro e eu não consigo deixar de pensar em como deve ser horrível viver um pesadelo que não termina quando eles acordam toda manhã. Será que você conseguiria?

Eu não consigo entender os motivos que levam algumas pessoas a cometerem atrocidades como essas - ou piores. Apesar de não entender, hoje em dia eu já não duvido do nível de crueldade das pessoas. É cada notícia absurdamente cruel que se lê nos jornais que depois de um tempo pouca coisa começa a te surpreender. Infelizmente. 

Dia desses eu tava no ônibus e um casal vinha conversando no banco da frente. Mesmo com fones no ouvido, não pude deixar de ouvir o garoto quase gritando pra todo mundo ouvir sobre as quatro pessoas que foram mortas na semana passada na rua onde morava. Inclusive ele achava até estranho que já era quinta-feira e ninguém mais tinha morrido por lá. Virou rotina.

Eu me assusto com essa "naturalidade" que eu noto muitas vezes nas vozes das pessoas (e na minha também) ao falar dessa violência, que estampa diariamente as capas dos jornais - e todo dia de manhã, num ponto de venda de jornais, você encontra uma rodinha de pessoas dando uma olhada nas principais notícias do dia pra ver quanto sangue foi derramado ontem. E o que não falta é sangue nos jornais. Tem sangue demais, segurança de menos, mas a gente já se acostumou com isso, não é mesmo? Não é?

Photo: weheartit

16 de fev. de 2014

Things will change if...

Achei aqui, ó: http://amortizing.tumblr.com/
Calma, calma. Não precisa de tudo isso. Eu sei que tá tudo uma merda e provavelmente as coisas vão continuar assim por um tempo. Mas é só por um tempo. Depois passa, as coisas mudam. Lembra da última vez? Foi exatamente assim como eu tô te falando. Confia em mim.

Pode ser que os teus problemas não se resolvam completamente. Mas depois de um tempo a gente aprende a lidar com eles. Uma hora a gente cresce e ao menos aprende um jeito de não deixar toda essa merda atrapalhar o resto da vida. Vai por mim, isso já aconteceu comigo e foi exatamente assim.

Então deixa de tanta neura e começa a pensar direito, começa a procurar soluções e o melhor jeito de resolver as coisas. Porque tudo bem sentar e chorar no começo, mas depois é preciso parar de mimimi e fazer alguma coisa. Senão é bem capaz de tudo continuar do jeito que tá e não vais poder culpar ninguém além de ti mesmo.

1 de fev. de 2014

Por enquanto

Nem sei mais se eu quero conversar sobre isso, sabe? Não faz muito tempo, mas, sei lá, parece tão... tão desnecessário agora, não é? Quer dizer, parece desnecessário pra mim, então por que diabos eu vou me dar ao trabalho de remexer nessa situação desagradável pra tentar resolver uma coisa que agora tanto faz? Sei lá, se um dia a gente resolver tentar alguma coisa de novo, quem sabe, talvez a gente senta e conversa sobre o que aconteceu. Não parece perda de tempo? Pois então, vamo deixar pra lá, a gente tem que se preocupar com tanta coisa diariamente que é quase um alívio não adicionar mais uma preocupação a essa lista. É só seguir em frente, a vida continua, let it be. Pelo menos sobre isso, por enquanto.

Encontrei nesse tumblr.

18 de jan. de 2014

What are you afraid of?

Encontrei aqui.
Então, senta aí, fala pra mim. Do que você tem medo? Aranhas, baratas, cobras, leões? Talvez eu tenha medo de leões porque eles são maiores do que eu, mas não saio correndo toda vez que vejo uma barata ou uma aranha subindo pela parede. Mas cada um tem seu medo, né? Quem sou eu pra julgar? 

Um amigo meu disse que tinha medo de ficar sozinho pelo resto da vida. E ele não é o primeiro a me dizer isso. Ontem mesmo eu li um texto da Martha Medeiros falando sobre esse mesmo medo. Minha tia me disse uma vez que, quando pequena, morria de medo do escuro e que até hoje ela se sente incomodada de dormir com as luzes apagadas, dorme no claro.

Eu, por exemplo, tenho medo de altura. Mas não é bem isso, na verdade. Eu tenho medo de uma altura insegura, sabe? No 30º andar de um prédio, olhando a cidade pela janela, tá tudo bem, eu sei que não vou me jogar dali e dificilmente vou cair. Mas subir numa simples árvore não é uma sensação muito legal, nem em um muro, quem dirá uma escada velha. E nem é tão alto quanto o 30º andar, mas é que é bem mais difícil o prédio cair ou eu me jogar dali do que a escada quebrar ou eu escorregar da árvore, não acha?

Você tem medo da morte? Conheço muita gente que morre de medo de morrer. Eu já pensei muitas vezes sobre esse assunto e cheguei à conclusão de que não tenho medo de morrer, só me preocupo se vai doer muito, sabe? Não bato cabeça pensando em tudo o que vou deixar pra trás e o que eu não vou poder viver, até porque eu não vou lembrar nada disso, afinal eu vou estar morto mesmo.

Mas esses são os meus medos, minhas neuras. Você ficou calado o tempo todo. Então me conta, você tem medo de quê?

6 de jan. de 2014

Velhice

Photo: weheartit
No fone de ouvido, um rock antigo, tão antigo que ele nem se lembrava de quando era. Talvez estivesse tão velho quanto aquela canção, porque havia começado a esquecer de coisas bestas, como o dia da semana, a hora de tomar remédio, a conta que venceu ontem. Mas ele não se importava com isso. Inclusive esperava ansioso o dia em que começaria a esquecer de coisas desagradavelmente importantes. Não via a hora de usar a velhice como desculpa por não ter ido àquela reunião de negócios chata com gente chata falando de um assunto chato que ele teve que aturar todos os dias da sua vida por quase 20 anos. Ele sabia que aquela profissão fora sua escolha, mas não era bem que isso que ele realmente gostava. Mas como isso não o levaria a outra coisa que ele também gostava muito - dinheiro - optou então por seguir um caminho fácil porém chato que era aquela rotina de todo santo dia, todo dia santo e você sabe o resto.

Passa tempo, idade aumenta, velhice chega, as pessoas começam a esquecer das coisas e ele se esqueceu do que realmente gostava. Agora só restava esquecer o que ele não gostava e então ele poderia finalmente não lembrar mais nada.

28 de dez. de 2013

48 meses

Eu poderia começar esse texto falando sobre como as coisas mudam em quatro anos. E eu não estaria mentindo. Mas aí seria a mesma coisa de todos os outros textos de aniversário que eu escrevo pro blog e eu já cansei. Foi aí que resolvi fazer algo diferente. É bem provável que alguém já tenha feito isso por aí, mas eu nunca fiz, então é novidade.

São quatro anos. 48 meses com esse blog no ar. Então, pra quem tiver saco, aqui estão 48 coisas sobre o blog e o blogueiro que vos escreve.

(Ah, se as lindas do Minha Vida Como Ela É e Língua e Imagem quiserem fazer isso de acordo com os meses que os blogs dela têm de vida, ficarei super feliz em ler.)


1. Esse blog quase foi abandonado depois da sua criação.
2. Outros 3 blogs tinham sido abandonados antes desse, então eu tinha quase certeza de que esse também seria. Era a lógica.
3. Meus textos eram mais idiotas do que são hoje.
4. Eu usava esse blog como um diário, daqueles que contavam sobre o meu dia e tudo o mais. Pelo menos os textos não começavam com "querido diário...".
5. Sim, vai lá olhar os meus primeiros textos pra comprovar.
6. Dos textos que eu escrevo, poucos são os que eu realmente gosto.
7. Todos os meus textos são baseados em histórias verdadeiras, minhas e de outras pessoas.
8. E poucas são as pessoas que sabem exatamente quais deles são sobre a minha vida ou de outras pessoas.
9. Inclusive eu já escrevi um texto sobre escrever textos baseados na vida de outras pessoas.
10. Eu passei a andar com um pequeno caderno na mochila depois que eu percebi que perdia muitas ideias por não anotá-las na hora em que me vêm à mente.
11. É por isso que devo ter quase 50 textos não acabados.
12. E 25 textos prontos pra serem publicados aqui no blog.
13. Eu sempre gostei de ler, desde pequeno. Deve ser por isso que gosto de escrever.
14. Eu aprendi a ler com os gibis da Turma da Mônica <3 o:p="">
15. Inclusive eu ensinei minha prima mais nova a ler também com os gibis da Mônica.
16. Eu adorava cadernos de caligrafia.
17. Foi por causa deles que minha letra mudou tanto ao longo dos anos.
18. Na verdade, até hoje ela sofre sutis alterações.
19. Isso é horrível quando se trata de documentos, porque a assinatura da minha identidade não é mais a mesma. Aí eu tenho que imitá-la.
20. Eu prefiro mil vezes escrever em papel que digitar, apesar de ser muito mais rápido no computador.
21. Eu sempre quis ter uma máquina de datilografar, mas quando eu ganhei uma, ela quebrou logo depois.
22. Eu normalmente escrevo os meus textos ouvindo músicas (e isso se aplica a listas também, inclusive ouvindo k-pop agora).
23. Falando em música, eu criei outro blog pra fazer críticas musicais, mas ele só tem o layout pronto e nada mais.
24. Esse blog já teve tantos outros nomes e tantos outros layouts que eu nem sei contar.
25. Foi por isso que depois eu o nomeei Inconstante. Casou perfeitamente.
26. Mas aí então eu fiz uma promessa de só trocar o layout dele de ano em ano, normalmente no aniversário. E aqui ele está.
27. Eu gosto tanto de mexer na identidade visual do blog que tenho outras 3 propostas de layout que ainda pretendo usar um dia.
28. Esse deveria ser o texto de número 200, justo no dia em que o blog faz 4 anos. Mas aí eu fiquei confuso porque isso não é bem um texto, é uma lista. Mas vou contar mesmo assim.
29. Eu tive a ideia de fazer essa lista depois de perceber que todo texto de aniversário do blog era quase a mesma coisa.
30. Eu vivo um grande dilema na minha vida: achar que todos os textos que escrevo são parecidos com algum outro que eu já escrevi um dia.
31. Uma das maiores dificuldades de ser blogueiro: encontrar imagens que combinem perfeitamente com o texto.
32. Esse problema seria resolvido se eu mesmo fizesse as minhas fotos, mas isso demanda tempo, dinheiro e segurança na cidade, mesmo que eu adore fotografar. Por isso uso imagens de outras pessoas (dando o devido crédito, é claro).
34. Eu também queria saber desenhar pra que eu pudesse ilustrar os meus textos, mas eu desenho muito mal.
35. Inclusive um dos layouts que eu tenho guardado é todo feito de desenhos a mão, mas aí eu também queria que todos os textos tivessem imagens assim e fica complicado quando você não gosta dos próprios desenhos e nem pode pagar alguém pra fazer isso, né?
36. Demoro 6537659 milhões de anos pra dar título aos meus textos. E eu nunca acho que eles ficam bons o suficiente.
37. Pesquisas apontam que meus textos melhoraram 56348% depois que comecei a fazer Jornalismo.
38. Quase tanto quanto escrever, eu adoro revisar textos de outras pessoas (quando elas me pedem, é claro).
39. Infelizmente hoje em dia eu leio menos blogs do que eu acostumava ler ano passado.
40. Assim como os textos que eu escrevo, gosto de blogs na categoria crônicas/contos.
41. E sim, eu julgo um blog pela aparência.
42. Minha maior surpresa do ano foi encontrar o blog Minha Vida Como Ela É, da Ana Luísa. Uma doçura de ler.
43. Odeio pessoas que comentam nos textos pedindo pra gente ir ler o blog deles.
44. Só comento nos textos dos outros quando eu gosto muito ou quando tenho algo a dizer sobre.
45. Através de blogs, já conheci duas pessoas que foram muito importantes na vida real.
46. Fico dividido entre a vergonha e a confusão quando as pessoas dizem que adoram os meus textos. Ai, valeu, mas como assim tu gosta daquelas coisas, gente?
47. Quatro anos de blog e eu fico super feliz de ainda sentir um enorme prazer em tocar esse projeto em diante.
48. Me desejo pelo menos mais quatro anos de sentimentos extravasados em textos. Amém.

14 de dez. de 2013

Maria

Please be honest, Mary Jane: are you happy?
Don't censor your tears.

E então, Maria? Me diz a verdade, por favor. Eu posso tá te pedindo isso agora, mas eu juro que é pensando em ti. Eu te peço: seja sincera contigo mesma, mulher. Porque não adianta andar por aí sorrindo mais do que todo mundo a tua volta quando por dentro tá tudo uma bagunça, aquela mesma que nunca tiveste coragem de arrumar. Por que ser assim? Não precisa atuar o tempo todo. Isso não te cansa, não? Porque eu já taria cansado há um tempão e teria mandado todo mundo pro inferno. E teria chorado depois. Não, chorar não é coisa feia, tira essa ideia da cabeça. Chorar faz bem, muitas vezes, pra fazer doer menos essa vida meio porra-louca que a gente vive todo dia. E eu acho que além da sinceridade, acho que precisas chorar. Mas chorar mesmo, daquele jeito que os olhos ficam vermelhos e você soluça tanto que parece que não vai mais conseguir respirar. Mas aí você consegue respirar porque o choro uma hora termina - seja porque você já chorou tudo o que tinha pra botar pra fora ou só porque você não tem mais forças pra chorar. E depois de chorar, depois de aceitar tudo, as coisas ficam melhores, a gente consegue pensar com clareza e ter pulso firme pra mudar essa vida. Bom, pelo menos foi assim comigo. Eu espero que as coisas sejam assim pra ti também, se possível mais fácil, porque eu sei que uma hora tu cedes, tu pedes arrego de todo esse peso que vens carregando no teu coração. Vai por mim, Maria: quanto mais cedo tu fores honesta contigo e com teus sentimentos, melhor pra ti e pra todas as pessoas que te amam.


6 de dez. de 2013

Contradição

Abri um documento e fiquei olhando para tela do notebook, esperando alguma coisa acontecer: uma ideia surgir, algo sobre o que escrever ou quem sabe o sono chegar. Uma ideia surgiu, vaga e corriqueira, algo sobre o qual eu já tinha escrito, mas dessa vez sob um novo ponto de vista. É sempre bom analisar algo de todos os ângulos possíveis, tirar a conclusão depois de ter certeza de ter verificado tudo, diminuindo a probabilidade de se falar besteira ou julgar precipitadamente.

Então comecei a escrever algumas palavras, uma frase, três períodos e o primeiro parágrafo estava concluído. Foi quando eu percebi que já não sabia mais o que escrever. Tudo bem, já escrevi textos curtos antes, inclusive alguns com duas linhas apenas (você chama isso de texto?). O problema é que aquele texto me parecia incompleto.

Inexplicavelmente faltava alguma coisa. E essa sensação incomodava. Como se não bastasse, ainda tinha a certeza de que não havia mais nada que eu pudesse acrescentar àquilo. Contradição da vida que até hoje eu não consigo entender. E eu tentei bastante, mas chega uma hora em que não se pode mais, que existem outras coisas para se preocupar e a gente substitui as velhas preocupações pelas novas mais urgentes, ou apenas mais intrigantes. Acontece.


Alguns dizem que isso nos ajuda a crescer. Talvez seja mesmo, como forma de aprender que nem tudo possui resposta, que algumas coisas simplesmente são e pronto. Quem sabe? Só sei que a contradição continuou, a sensação de falta também e o sono finalmente chegou. Achei melhor me entregar às necessidades do corpo e descansar a mente. Quem sabe a resposta não me viria nos sonhos? As coisas são tão estranhas que eu não duvido nada que isso seja possível.

Photo: weheartit

24 de nov. de 2013

O lado bom

Photo: Renan Mendes
Tenho alguns arranhões no rosto, uns machucados nas pernas e dores pelo corpo todo. Quebrei a cara. Foi horrível, como sempre é toda vez que as coisas não saem do jeito que imaginamos, quando as pessoas não se importam com os nossos sentimentos, quando todo mundo espera o impossível de você e tudo o que você quer é paz pra fazer as coisas do seu jeito, sem pressão. O mundo nunca foi e nunca vai ser perfeito, do jeito que – pelo menos nós achamos que – deveria ser. Foi desde quando eu realmente percebi isso que eu tomei a decisão de sempre procurar o lado bom das coisas que acontecem comigo. Graças aos céus, a maioria delas só possui o lado bom, mas ainda existe a minoria. Nessa outra parte, as pessoas são maldosas e não se importam em me machucar; nessa parte eu crio expectativas com projetos que não dão certo, que fracassam, que me frustram; é nessa parte que algumas coisas que eu tinha certeza que durariam pra sempre terminam por besteiras; é aí que eu fico perdido me perguntando se eu tô fazendo a coisa certa com a minha vida, se eu tô fazendo as coisas certas para as pessoas, se eu tô sendo bom o suficiente com pessoas que são boas o suficiente comigo. E a lista não terminaria, porque essas coisas acontecem com todo mundo e não seria diferente comigo. Mas eu posso lidar de maneira diferente com essa outra parte da vida. Eu posso aceitar que algumas coisas fogem do meu controle, que não poderiam ser diferentes e eu tento buscar o que essas coisas podem me ensinar. Foi horrível ver aquele projeto não dar certo? Foi, sim. Mas ele não deu certo porque tinha muita gente envolvida que não se envolveu de verdade. Da próxima vez, vou selecionar melhor e quem sabe trabalhar de outro jeito pra que as coisas possam ter mais chances de dar certo. Não fui bem numa prova importante? Ok, agora já foi. Mas eu posso estudar e me esforçar mais pra que isso não aconteça de novo. Pessoas que eram próximas de mim não estão mais na minha vida? Vou procurar os motivos pra isso ter acontecido. Se der pra consertar, ótimo. Caso não dê, vou tentar ao máximo não cometer os mesmos erros outra vez. E assim eu resolvi levar a vida, pra que as coisas ruins que ela traz não se tornem maiores que as coisas boas que eu vivo todo dia.