1 de out de 2011

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(...)

Começa a tocar uma música animada e com refrão pop grudento.

- Não, Beto. É o CD da esquerda, perto do cinzeiro prata. Aproveita e traz ele pra cá.

Ouve-se barulho de coisas caindo, a música para. Logo depois um violino, em uma melodia tranquila e envolvente, passa a ser tocado, mas de forma quase tímida. Roberto entra na sala com um sorriso envergonhado, como se pedisse desculpas, e com um objeto prateado nas mãos. Deixa em cima da mesa e se senta em frente à Alice.

- Obrigada.
- Essa música é melhor que a outra mesmo.
- Faz tempo que não a escuto.
- Faz tempo que você não fuma.

Alice acende o cigarro, traga, deixa o isqueiro em cima da mesa, ao lado do cinzeiro, e joga a fumaça pro alto.

- Eu precisava. Mas já não é como antes. - Afirma, olhando para a fumaça que sobe.
- É... Já não é como antes. Você acha que isso é bom, Alice?
- Não sei. Só sei que não é mais. – Ela traga uma última vez antes de levar o cigarro até o cinzeiro e apagá-lo.

O violino ainda ecoa pela sala enquanto os dois se olham, lendo olhares, conversando sem trocar palavras. O tempo passa e eles nem percebem, porque há muito para ser dito, há muito para se ouvir. No caso deles, palavras destoam do real sentido e olhares são as coisas mais próximas que eles encontraram do sentir. Então eles se calam, só por um momento, pra saber a verdade.

- Mas eu nunca te disse a verdade, Beto.
- Eu sempre soube a verdade.
- Como?
- Porque eu te conheço, até quando estás desconfortável na tua própria pele.
- Queria poder te conhecer assim.
- E achas que não sabes a minha verdade?
- Eu acho que não te conheço, só.
- Eu te conheço. Acho que até mais do que alguém poderia. Porque eu te amo.
- Isso não é verdade.
- É a minha verdade.
- Eu queria acreditar, mas não consigo.
- Por que não tentas?
- Porque tu és uma incógnita.
- Eu me despi na tua frente...
- Eu não quis ver.
- Foi por medo?
- De não te aceitar, de não acreditar que o que me mostravas poderia ser tua verdadeira pele.
- Quando vais superar esse medo?
- Não sei. Só sei que já não é como antes.
- E nesse momento, isso não me parece nada bom.

2 comentários:

Gustavo Ferreira disse...

Acho que me ensinastes agora...

quaresma. disse...

tem verdade que nós só vemos com os olhos fechados, diga isso para Alice (:

beijas, castanha do pará ;*