1 de fev de 2012

A carta

Toca a campainha e, lá em cima, ele lentamente abre os olhos. "Levanto quando tocar mais uma vez", pensou. Fechou os olhos e esperou o momento de levantar da cama, que agora parecia fazer parte dele. Esperou. A campainha não tocou de novo. "Melhor", concluiu.

Meia hora depois ela decide que não pode continuar do jeito que estava, trancado no quarto desde ontem à noite, com a roupa ainda molhada da chuva que pegara durante o caminho de volta para casa. Ele não se importou muito com isso antes, mas agora estava incomodado. Tomou coragem, levantou da cama e desceu pra tomar banho.

Com o andar lento, passa pela sala e vê um envelope no chão, perto da porta. Caminha até local, pega a carta com preguiça e prende a respiração quando reconhece a letra no envelope. Olha bem para carta, analisando-a e decide por abrí-la. Em uma folha de papel, mais palavras escritas com a mesma caligrafia que as palavras no envelope. Ele lê:


N,

espero que um dia leias estas palavras, porque sei que já não me escutas mais. Conheço teus motivos e concordo em parte. Aliás, foi a discordância no restante deles que te fez ignorar minhas palavras, te fez ir embora. Foste. E realmente sinto tua falta em muitos momentos do meu dia, mas fomos tão orgulhosos... Fomos mais orgulhosos do que fomos apaixonados um pelo outro. Por isso acabou. Triste, porque assim como eu, você sabe o que ainda sentimos um pelo outro - o que já não parece ser suficiente, o que não foi suficiente pra te impedir de sair pela porta mesmo com o mundo caindo lá fora (e o meu mundo desmoronando aqui dentro).
Sabe o que mais dói? Saber que podia ter sido diferente. Com apenas uma palavra a mais ou a menos, tudo poderia ser diferente. Mas passou e não há volta. Tenha certeza de que se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria nossa realidade. Mas é melhor a gente se preocupar com o que vem pela frente, agora que o 'nós' ficou pra trás.
Enfim, seja feliz. Vou tentar ser também. É assim que tem que ser.

O último abraço (que nunca tivemos),
A.


Releu a carta, guardou-a de volta no envelope e subiu as escadas. Abriu a porta do quarto, trancou-a e deitou-se na cama, desejando que voltasse a ser do jeito que era antes de ouvir a campainha tocar.

2 comentários:

Gustavo Ferreira disse...

Não raros os momentos em que a gente gostaria de brincar de Chronos, só pra não ouvir uma verdade inconveniente. Ou pra que elas nem existissem.

Raíssa Bahia disse...

Um jogo de perfeição nas palavras que relatam grandes verdades. Idas e vindas sem vem nem vão. O tempo é sempre certo, nunca a mais, nem a menos. O tempo tem seu tempo na medida exata. Valeu a pena esperar, Renan. Parabéns! Daqui a uma semana eu bato os punhos na mesa três vezes, se preciso, pra ler outro texto maravilhoso assim.